Será mesmo que as coisas são assim? Instituições, mídia e cultura da (in)diferença*
Quando falamos em diferença, geralmente pensamos naquilo que distingue uma pessoa da outra. E, de fato, todos somos diferentes. Temos gostos distintos, trajetórias singulares, modos diversos de viver, pensar e sentir. No entanto, a diferença nunca existe sozinha. Ela é sempre acompanhada da ideia de igualdade. Somos diferentes uns dos outros, mas também compartilhamos condições comuns: somos humanos, dependemos de água para viver, necessitamos de vínculos e reconhecimento.
Diferença e igualdade são, portanto, categorias interdependentes. O problema surge quando a diferença deixa de ser reconhecida como expressão da diversidade humana e passa a ser utilizada como justificativa para discriminar, excluir ou dominar.
É nesse ponto que a noção de dominação se torna fundamental. Compreendo a dominação como uma relação de poder sistematicamente desigual e injusta, capaz de produzir sofrimento e restringir o acesso de determinados grupos a recursos econômicos, culturais, sociais e simbólicos. Nem toda relação de poder é uma relação de dominação. Existe uma diferença importante entre autoridade e autoritarismo.
Um professor que solicita a um estudante que desligue o telefone celular durante a aula está exercendo sua autoridade em benefício do coletivo. Já um professor que humilha ou agride verbalmente um estudante está utilizando seu poder de forma autoritária, produzindo uma relação de dominação.
A dominação nem sempre se apresenta de forma explícita. Muitas vezes ela opera de maneira sutil, naturalizada e quase invisível. Sua força depende justamente da capacidade de fazer parecer naturais desigualdades que são historicamente produzidas.
Nessas circunstâncias, a diferença deixa de ser reconhecida como singularidade e passa a ser transformada em marca de inferioridade. Racismo, homofobia, sexismo, capacitismo e outras formas de discriminação dependem da construção de um "outro" considerado desviante, inadequado ou inferior.
Há, entretanto, uma contradição nesse processo. Ao mesmo tempo em que a sociedade produz o "diferente", busca padronizar comportamentos, modos de vida, corpos e desejos. A valorização da uniformidade convive com a fabricação permanente das diferenças. E dessa tensão emerge aquilo que denomino cultura da indiferença.
A indiferença ocorre quando o sofrimento do outro deixa de nos afetar. Quando determinadas populações passam a ser vistas apenas como problema, ameaça ou incômodo, sua humanidade é gradualmente apagada. Nesse sentido, a indiferença também constitui uma forma de dominação.
As estratégias de dominação operam, em grande medida, por meio da linguagem. A linguagem não é transparente. Ela não apenas descreve a realidade; ela produz sentidos sobre essa realidade. Como nos lembra Eni Orlandi (2012), a linguagem é social e histórica. Por isso, aquilo que dizemos nunca corresponde apenas ao significado literal das palavras.
Quando os discursos passam a sustentar relações de dominação, entramos no campo da ideologia. Inspirada em John B. Thompson (1995), adoto aqui uma concepção crítica de ideologia: ela não corresponde simplesmente a um conjunto de ideias, mas às formas pelas quais determinados sentidos contribuem para estabelecer ou manter relações desiguais de poder.
Isso exige que perguntemos constantemente: quem se beneficia de determinada narrativa? Que interesses são sustentados por ela? Quais grupos são valorizados e quais são desqualificados?
Essas questões tornam-se particularmente relevantes quando analisamos os discursos produzidos pelas instituições e pelos meios de comunicação.
A mídia ocupa um lugar privilegiado nesse processo porque, ao mesmo tempo em que reproduz representações sociais já circulantes, também produz novas formas de compreender o mundo. Ela não atua no vazio. Reinterpreta histórias, reforça valores, consolida padrões e ajuda a definir quem merece reconhecimento e quem deve ser temido ou evitado.
Em pesquisas realizadas por nosso grupo sobre a chamada "epidemia do crack", observamos como determinados discursos midiáticos contribuíram para a construção da figura do usuário como alguém essencialmente perigoso, violento e ameaçador. Ao utilizar expressões como "praga", "peste", "crise" ou "epidemia", parte da mídia ajudou a constituir representações que justificavam o afastamento e a exclusão dessas pessoas.
Thompson (1995) denomina esse processo de expurgo do outro: a construção de um inimigo comum contra o qual a sociedade é convocada a se mobilizar. O resultado é a produção de sujeitos tão radicalmente diferentes que nos tornamos indiferentes ao seu sofrimento.
Entretanto, o papel da Psicologia não é aceitar explicações prontas. É perguntar: será que as coisas são realmente assim? Será que essas representações correspondem à complexidade das experiências humanas? Como determinados sentidos são produzidos e mantidos?
Desnaturalizar é justamente isso: mostrar que aquilo que parece natural é, na verdade, resultado de processos históricos, sociais e culturais.
As relações de gênero, a sexualidade, as hierarquias sociais, as desigualdades e os próprios conceitos de normalidade constituem exemplos de fenômenos frequentemente naturalizados. Quando deixamos de questioná-los, corremos o risco de transformar diferenças em desigualdades e desigualdades em verdades aparentemente evidentes.
Para a Psicologia, essa reflexão é especialmente importante porque a naturalização da exclusão produz sofrimento psíquico. A cultura da indiferença não é apenas um problema político ou social; é também um problema ético e clínico.
Nossa tarefa consiste em criar (e participar de) espaços de escuta capazes de acolher a singularidade das pessoas sem transformar a diferença em desigualdade. Isso exige reconhecer que preconceitos, discriminações e práticas de exclusão têm efeitos concretos na vida dos sujeitos.
Talvez uma das contribuições mais importantes da Psicologia seja justamente essa: recusar explicações naturalizadas e insistir na pergunta que mantém viva a reflexão crítica:
"Será mesmo que as coisas são assim?".
Por Adriane Roso, 28 de setembro de 2026.
Referências
Orlandi, E. P. (2012). Discurso em análise. Sujeito, sentido, ideologia. Pontes.
Thompson, J. B. (1995). Ideologia e Cultura moderna. Teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Vozes.
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Como citar: Roso, A. (2026). Será mesmo que as coisas são assim? Instituições, mídia e cultura da (in)diferença. Blogue Vidas, Universidade Federal de Santa Maria.
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